A PATERNIDADE ESPIRITUAL NA TRADIÇÃO CENOBÍTICA

 

Capítulo proferido por Dom Armand Veilleux,OCSO, na Abadia de Notre-Dame de Scourmont, em 1 de novembro de 1998.

Vimos no domingo passado como toda a paternidade espiritual é uma expressão de algum modo, uma encarnação da paternidade de Deus. Vimos igualmente como esta realidade foi vivida na Igreja Primitiva e no monaquismo anacorético do deserto. Vejamos agora como ela é vivida no cenobitismo. O abade carismático do deserto transmite sua própria experiência espiritual aos discípulos que vêm se colocar sob sua direção. O cenobitismo aparece quando homens como Pacômio no Egito, Basílio na Capadócia, e muitos outros, são chamados por Deus, não mais somente para transmitir sua experiência espiritual numa relação de Mestre ao discípulo, mas a transmiti-la através de uma regra de vida comum, o que se chamava politeia em grego e que será chamada conversatio em latim. Na vida cenobítica é a comunidade que engendra o Cristo em seus membros. A paternidade de Deus é exercida e expressa, de início, através da caridade fraterna, através da responsabilidade mútua que todos os irmãos assumem uns com os outros. No interior desta comunidade, diversas pessoas tem serviços a fazer, mas o serviço mais importante, seguramente, é o do abade, do pai da comunidade. Exerce ele, pelo que tem esta tarefa, a paternidade ou a maternidade de que a comunidade como tal é detentora. Como exerce esta paternidade? Essencialmente ensinando constantemente a Palavra de Deus, por suas palavras e seu exemplo. Mas seu exemplo é o da fidelidade à regra comum e o de uma realização tão autêntica quanto possível da experiência espiritual encarnada nesta regra comum. Seu modo pessoal de vida não é normativo. Seu exemplo é valioso na medida em que é fiel à norma comum. A relação entre o Ancião do Deserto e seu filho (ou filhos) espiritual (is) é um tipo de relação completamente diferente que o tipo de relacionamento que existe entre um abade cenobítico e a comunidade de que tem o encargo. No primeiro caso, trata-se essencialmente de uma série de relações individuais. No outro caso, trata-se de início de relações interpessoais entre irmãos. O ancião do deserto existe como "ancião" antes que os discípulos venham a ele que ele tenha ou não discípulos. O abade cenobítico como tal não existe antes de ter sido designado. A comunidade existe antes dele. A paternidade existe antes que ela lhe seja confiada. Não se trata de uma paternidade carismática; é uma tarefa que lhe é confiada pelos irmãos; e uma vez que os irmãos o designem como aquele que encarnará em seu seio a paternidade de Deus e do Cristo, deve ele - e eles, por sua parte, devem - crer na graça de Deus. Num e noutro caso, a paternidade espiritual se exerce essencialmente pela transmissão da Palavra de Deus e encarnando com relação ao discípulo a "paternidade" ou a "maternidade" de Deus. A esta dimensão essencial da paternidade, junta-se uma outra dimensão que se chama hoje direção espiritual. E é neste nível sobretudo que existe uma grande diferença entre o monaquismo do deserto e o cenobitismo. No deserto, a direção consiste na transmissão da experiência de um modo muito prático, freqüentemente original. Dá-se ao discípulo ordens- por vezes absurdas- para quebrar a sua vontade própria ou para testar sua obediência. Far-se -á o mesmo recitar um grande número de orações vocais ou será impedido de as recitar... Exigir-se-á que ele se abandone totalmente nas mãos de seu "formador" e que ele mostre este abandono numa abertura cotidiana de todos os seus pensamentos bons ou maus. Este método não é para ser desdenhado. Tem seus frutos (terá tido também suas vítimas). Baseia-se sobre a escolha livre de um ancião por um discípulo, que pode, por outro lado, deixá-lo. Ela é uma relação essencialmente provisória. É preciso dizer que certos pais, um Evágrio, por exemplo, desenvolveram um conhecimento aprofundado e extenso da alma humana e de todas as tentações que pode conhecer a pessoa que se consagra a Deus. Desenvolveram uma forma particular de "direção espiritual" que inspirará as gerações seguintes até hoje, no interior do monaquismo como no seu exterior. Alguns o faziam por correspondência como Barsanufo e João, por exemplo, e de um modo admirável. Trata-se certamente de uma expressão da paternidade espiritual, mas é uma realidade que não se deve identificar sem mais com esta. No cenobitismo, a direção espiritual é dada essencialmente pela Regra comum, comentada e aplicada pelo ensinamento comunitário do abade. O noviço precisa de um ancião "apto a ganhar as almas", que velará por ele e se assegurará que busca verdadeiramente a Deus, e que ele é assíduo ao Ofício Divino, à obediência e às humilhações. Quando o monge adulto passa por um momento de crise, ou quando tem um discernimento importante a fazer, será normal que vá se abrir com seu abade, ou que ele consulte um outro membro da comunidade que é pneumatóforo. Mas seria errôneo querer transpor para o cenobitismo o método de "direção espiritual" do deserto. Deve-se, então, distinguir muito bem a "paternidade espiritual" da "direção espiritual": isto é essencial. A paternidade espiritual é um valor cristão de todos os tempos. A direção espiritual é um método de ajuda fraternal que, em cada época, é muito influenciado pelo contexto sócio-cultural. Assim como não convém praticar hoje a direção espiritual tal como era praticada há um ou dois séculos atrás, onde o diretor decidia em nome da obediência o que devia seu dirigido fazer, da mesma forma, não é necessário, nem talvez oportuno praticar em nossos dias a direção espiritual que praticavam os Padres do Deserto, e que dependia em grande medida de seus métodos de técnicas de educação em vigor no Egito da época. É suficiente ler a Vida de Pacômio para ver bem a diferença entre as duas abordagens. O autor da Vida parece ter esta preocupação particular de mostrá-la. Após sua conversão e um período passado numa vila, Pacômio, no início de sua vida monástica se coloca primeiro sob a direção de um velho chamado Palamon. Este relato parece só ter a finalidade de mostrar como a " Koinonia " (comunidade) que estabeleceria Pacômio seria totalmente diferente. Pacômio diz a Palamon: "Desejo que tu me permitas tornar-me monge junto de ti". Palamon, após ter de início recusado, lhe descreve seu modo de vida, mas o aceita. E a Vida acrescenta: "Viviam juntos como um único homem, praticando uma dura e esgotante ascese." A descrição de sua vida conjunta é típica da relação do pai carismático e de seu discípulo no deserto. Mas Pacômio se sente chamado a outra coisa, isto é , a reunir homens em comunidade, à imagem da comunidade primitiva de Jerusalém. Assim que deixa seu Pai Palamon para se instalar sozinho num vilarejo abandonado, pessoas vêm viver em torno dele, pois isto é bom para eles. Ele se coloca inteiramente a seu serviço, mas eles abusam dele e se rebelam quando deseja lhes impor uma regra comum. Deve despedi-los e depois recomeçar com um segundo grupo. Compreendeu então que não era suficiente se colocar a seu serviço, mas deve organizar uma vida de comunidade onde cada um esteja ao serviço de todos. É interessante notar que a descrição da organização material da comunidade, onde os irmãos são encarregados da cozinha, da hospedaria, da enfermaria, das vendas e das compras, feita no texto começa por :"Ele estabeleceu alguns dentre os irmãos capazes como seus assistentes para terem cuidado pela saúde das almas" (SBo 26). Cada vez que alguém vem ao Mosteiro porque ouviu falar de Pacômio, o que busca não é de início um pai espiritual, mas uma comunidade onde Pacômio é o pai. Assim, quando Teodoro, o discípulo preferido de Pacômio, chega ao mosteiro pois queria ver este abade de quem lhe haviam descrito o ensinamento espiritual, Pacômio o introduz na comunidade, e ele cresce em virtude imitando o exemplo dos irmãos. Pacômio lhe dará responsabilidades no seio da comunidade, mas se criará uma tensão entre os dois, precisamente porque Teodoro não chegará a compreender esta maneira particular de exercer a paternidade espiritual no seio de uma comunidade cenobítica. O abade de uma comunidade cenobítica deve ser muito paternal (e mesmo maternal) com relação a cada um de seus monges; mas não deve esquecer que ele também e inicialmente o pai da comunidade. É no seio desta comunhão fraterna, que é uma manifestação sacramental da presença do Cristo, que suas atenções paternais tomam seu sentido e se tornam verdadeiramente uma encarnação da única paternidade, a de Deus.

© Abadia de Scourmont, 1998.

Traduziu: Cecilia Fridman, Rio Negro, PR, Brasil para o Mosteiro Trapista Nossa Senhora do Novo Mundo, 1999.

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Com permissão de D. Armand