"Pela paciência participamos dos sofrimentos do Cristo"

(RB Prol 50)

D. Armand Veilleux, OCSO

Capítulo na Abadia de Scourmont, Forges, Bélgica, 28 de março de 1999.

 

Ao fim do Prólogo da Regra de São Bento, há uma frase que gosto de citar, pois acho-a muito bonita. É aquela em que Bento, depois de ter explicado que o mosteiro é uma escola do serviço do Senhor, e após ter descrito em grandes linhas o programa desta escola, conclui: "À medida que se avança na vida monástica e na fé, o coração se dilata. E se corre o caminho dos mandamentos de Deus (Sl 118, 32), com o coração cheio de um amor tão doce que não há palavras para exprimi-lo".

 

Logo depois desta frase, segue-se uma outra, que conclui o Prólogo: "Assim, nunca nos afastando de Deus, nosso Mestre, e cada dia perseverando no mosteiro até a morte, continuaremos a fazer o que ele nos ensina. E assim, pela paciência, participaremos dos sofrimentos do Cristo e mereceremos assim estar com ele em seu Reino (Rm 8,17). AMÉM." (Em Latim, paciência (patientia) e sofrimentos (passiones) têm a mesma raiz).

 

Bento não deseja que avancemos na vida tristes e deprimidos. Espera que logo em nossa caminhada monástica, cheguemos àquele grau de desapego e de liberdade que nos permita ser transportados pela alegria do Espírito - uma alegria que é o fruto do amor de Deus e do próximo que enche nossos corações. Mas é ele também muito realista para saber que não podemos aí chegar sem o caminho que o próprio Cristo tomou, que é o da cruz. Pela cruz se vai à ressurreição. Aos postulantes que se apresentam ao mosteiro, é necessário, segundo Bento, ensinar desde o início os dura et aspera pelos quais se vai a Deus.

 

Desejaria mencionar, entre muitos outros textos, dois outros da Regra em que São Bento expressa sua teologia do sofrimento. O primeiro é o capítulo 36, sobre o cuidado a dar aos irmãos enfermos. Neste capítulo, Bento manifesta ao mesmo tempo uma profunda compaixão e uma sólida teologia. É preciso ser paciente com os doentes, mesmo quando eles se tornam difíceis de trato ou exigentes. Por quê? Pois eles foram assimilados ao Cristo, porque participam em sua própria carne dos sofrimentos do Cristo, e o Cristo aí está neles presente de um modo todo especial. A Regra do Mestre era muito dura com qualquer fraqueza e tinha pouca simpatia pelos doentes (RM 69). Bento prefere exagerar na misericórdia. Está de acordo com Agostinho que diz em sua Regra (35) que é preciso sempre dar o benefício da dúvida ao doente.

 

É mais ou menos natural ser sensível àqueles que estão fisicamente doentes. Mas há outras formas de enfermidade, sobretudo as do caráter. E este é o motivo de citar um segundo texto da mesma regra. É o capítulo 72, sobre o bom zelo dos monges.

 

Bento fala de início de duas formas de zelo. Há um zelo (um "fogo", como traduz a Bíblia de Belloc) mau e amargo, que separa de Deus e conduz para longe dele para sempre. Cada vez que nos sentimos amargos, devemos temer e rezar a Deus para que ele nos livre deste amargor, pois, diz São Bento, ele separa de Deus e nos separa também da comunhão com os outros e conduz ao inferno, pois o inferno é a ausência de comunhão com Deus e com os outros. Mas, felizmente, há também um bom zelo, aquele que leva a Deus e à vida eterna, isto é, à vida de eterna comunhão com Deus e com os outros. E, certamente, este é o zelo que os monges devem desenvolver com um amor fervoroso: "Cada um desejará ser o primeiro a mostrar respeito por seu irmão".

 

O bom zelo que conduz a Deus consiste então, primeiramente, em se respeitar mutuamente. Este respeito começa evidentemente pelas boas maneiras; mas exige muito mais. Consiste, diz Bento, de "suportar com muita paciência as fraquezas dos outros, as do corpo e as do caráter" e a "se obedecer mutuamente de todo coração."

 

Bento assim termina o capítulo, que era o último da Regra, antes de lhe ser acrescentado o capítulo 73, com a frase maravilhosa, paralela à última frase do Prólogo: "Obedecerão mutuamente de todo coração. Ninguém procurará seu próprio interesse, mas antes o que serve ao outro. Terão entre si um amor sem egoísmo, como os irmãos de uma mesma família. Respeitarão a Deus com amor. Terão por seu abade um amor humilde e sincero. Nada preferirão ao Cristo. Que ele nos conduza todos juntos à vida eterna com Ele!"

 

Cristo sofreu por nós por amor. Da mesma forma, quando Bento nos lembra os dura et aspera pelos quais se vai a Deus e a participação na cruz de Cristo, não elabora uma espiritualidade sombria e doentia do sofrimento pelo sofrimento. Fala das exigências do amor que são inerentes à vida em comum. A partir do momento em que estabelecemos as ligações de comunhão com os irmãos, somos levados a nos suportar mutuamente em nossas enfermidades, a ter sempre em conta as necessidades dos outros e suas fraquezas em cada uma de nossas decisões. O Cristo não nos mostrou acaso que o caminho para a alegria se acha nesta kenosis, esta maneira de esvaziar para ser preenchido? E não se trata simplesmente da vida eterna após a morte. Trata-se da alegria aqui, sobre a terra, que é verdadeira e real somente num coração que sabe se doar totalmente à alegria na medida em que se desapega e não se volta para si mesmo.

 

Abadia de Scourmont, 1999

 

Traduziu: Cecilia Fridman, Rio Negro, PR, Brasil, para o Mosteiro Trapista Nossa Senhora do Novo Mundo, 1999.